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Aventura: o dia em que revisei uma tradução para o inglês feita por uma tradutora inglesa

Esta é uma história verdadeira. Por motivos óbvios, não posso citar nomes. Mas juro que é verdade. Uma agência inglesa me telefonou (sim, a história, como todas que eu conto, é antiga: era um telefone fixo) para pedir um serviço muito especial. Tratava-se de um documento do governo brasileiro, que tinha sido escrito em português e cuja tradução para o inglês, para publicação, não sei por que cargas d’água, tinha sido encomendada à agência que era minha cliente. Fiquei surpreso: na Inglaterra, como em todos os países desse tal de primeiro mundo, tradutores profissionais só traduzem para suas línguas maternas. Ou seja, euzinho aqui só posso traduzir para o português, nunca para o inglês. Porque, por mais que eu tivesse estudado inglês — e olha que não estudei pouco— mesmo meu inglês escrito nunca vai perder o sotaque. Então, o que diabo queriam? Simples: eles tinham encomendado a tradução a uma profissional inglesa e queriam que eu revisasse o serviço dela. Não o estilo, claro — po...

Dicas para tradutores novatos

Não existe um caminho. Há vários, nenhum deles fácil, nenhum deles garantido e cada um de nós traçou e seguiu o seu. O caminho que você vai seguir, só você sabe qual vai ser. Nenhum deles é fácil. Você vai ouvir vários conselhos divergentes. Ouça todos, mas quem vai ter que traçar seu caminho é você. Não tem mágica, não tem receita do bolo, não tem caminho das pedras. Mostre respeito pela profissão e pelos colegas: ninguém ajuda principiantes mal educados. Traduzir não é moleza, não é coisa de “vou pegar uns trampo e descolar um dindim”. Saber muito bem duas línguas é só o sopé da montanha. É só o ponto de partida. Ai, você tem que aprender a traduzir, o que é outra conversa. Aliás, quando começar a traduzir, vai notar que sabe muito mal as duas línguas que achava que sabia muito bem. Mas esse é outro problema. Nem todo bom professor dá bom tradutor e vice-versa. Traduzir é uma coisa, ensinar é outra, por isso que uma atividade se chama “traduzir” e a outra chama “ensinar”. E vice-vers...

Melhor gramática portuguesa para quem traduz

Qual é a melhor gramática portuguesa para quem traduz? A pessoa se toma de amores por uma língua estrangeira (nos tempos que correm, geralmente o inglês) — e estuda essa língua como se o mundo fosse acabar amanhã. Aprende regras de cuja existência os nativos nem desconfiam. Depois, um belo dia (sempre há “um belo dia”, eis o problema), cisma de fazer tradução. Aí, se dá conta de que seu português é pífio. Então, posta num grupo a pergunta “qual é a melhor gramática do português?” Tudo se passa, na cabeça dessa pessoa, como se houvesse um livro, uma obra maravilhosa, que matasse todas as suas dúvidas de português. Ledo engano. Gramáticas são livros maravilhosos, mas nem resolvem nossos problemas nem foram projetadas para resolver. Tenho várias gramáticas em casa. Já tive mais, porque minha mulher, formada em letras, comprava gramáticas compulsivamente. Tive de me desfazer de muitas, porque minha biblioteca não cabia no apartamento onde moro hoje. Mas ainda tenho desde um pdf da excele...

Portas ferradas

Tragicomédia tradutória em três atos e um epílogo. Os nomes foram trocados, mas a história é autêntica. Antigamente, não tinha Internet: a gente ia ao escritório do cliente. Dá para imaginar? E toda tradução vinha em papel. Dá para imaginar? E, nas tabelas, para reduzir custos e abreviar prazos, a gente não digitava os números, só o texto. O “pool” de secretárias do cliente passava tudo a limpo, no papel timbrado deles, copiando os números do original. Às vezes, o original vinha manuscrito. Isso tudo para introduzir uma história de que até hoje dou risada. Fui entregar a um cliente um serviço pronto, mas com uma dúvida. Um item, em um demonstrativo, me escapava ao entendimento: “portas ferradas”. Que raio é uma porta ferrada? Levei o serviço ao cliente, uma firma de auditoria, e comecei minha via crucis pelo gerente encarregado do serviço. Ato I: Dramatis personae:  Danilo Nogueira, Tradutor,  Genésio Gerente, Gerente de auditoria.  Cenário: sala de gerente de auditoria, ...

Quanto devo cobrar por minha tradução?

Se você entrar num grupo de tradutores na Internet para perguntar quanto deve cobrar por um determinado serviço, há uma bela chance de alguém te recomendar a tabela do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA, para os íntimos). É muito interessante. Se você perguntar onde está a tal tabela, o tio Gugu não vai te apresentar tabela nenhuma, mas sim uma página chamada “ Valores de referência ”.  Porque não existe tabela do SINTRA.  Por isso, ninguém, nem agência nem cliente final, é obrigado a pagar aqueles preços e raramente você vai encontrar quem pague aqui no Brasil. Mas, se você investir dois minutos de sua vida em ler a Carta Aberta , do próprio SINTRA, que acompanha a lista de valores de referência, vai ver o seguinte:  “A lista é somente uma referência; não uma tabela. Os valores da lista representam valores brutos, com impostos incluídos, ou seja, de trabalhos finalizados, revisados, e realizados por profissional sênior, não por iniciantes ou pessoas com dedicação ...

Laudas e páginas

Nada impede que você cobre (ou receba) por lauda. Aliás, nada impede que você cobre ou receba por baciada, sacola, barril, ou o que seja. Mas tenha em mente que: Não existe lei nenhuma, divina ou humana exigindo que tradução se cobre por lauda, salvo se for juramentada, caso em que o profissional é obrigado a cumprir o que a Junta Comercial de seu estado manda. Se você não é juramentado, essas disposições da JC não se aplicam a você. Tira isso de lauda da tua cabeça que não te faz bem. Deixei de cobrar por lauda ainda no milênio passado. Não me arrependo. Página e lauda são entidades diferentes. Uma página é uma página e uma lauda é uma lauda. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Páginas e laudas são como seres humanos: há-as de vários tamanhos. Cada uma das pessoas que cobra/recebe por lauda define a lauda de um jeito e acha que o seu jeito é o certo. A noção de lauda do seu cliente pode ser diferente da sua. Geralmente, a lauda dele é maior do que a sua. Uma página pode ...

Você quer ser tradutor profissional?

Esta é a primeira de uma série de postagens dedicadas aos que pretendem se dedicar à profissão de traduzir. Tenho várias engatilhadas e pretendo publicar uma por semana, entremeando com outros assuntos de interesse para quem traduz. Espero que você goste. Entenda que saber uma língua estrangeira é só o primeiro passo. Você pode saber uma língua estrangeira muito bem, mas isso não significa que você vá poder traduzir bem.  Estude português.  Se você, como a maioria dos candidatos a tradutor, se matou de estudar uma língua estrangeira e não se preocupou muito com o português, prepare-se para estudar português feito doido. Ortografia, crase, uso apropriado do verbo haver, pontuação, essas coisas. Quer você queira, quer não, a maior parte do seu serviço provavelmente vai ser para a o português – e para a norma culta, ainda por cima. Entenda que ensinar é uma coisa, traduzir é outra. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Nem todo professor dá bom tradutor, nem todo tr...